Leandro Portella

Proseando sobre sexualidade com Leandro Portella

Posted on out 19, 2011

Rede SACI
Belo Horizonte-MG, 18/10/2011

Um bate papo informal entre Adriana Lage e Leandro Portella sobre a sexualidade dos lesados medulares e as dificuldades encontradas por tetraplégicos

Adriana Lage

Considero a internet uma das maiores invenções da humanidade. A quebra das fronteiras físicas e culturais nos permite viajar por mundos bem diversos, conhecer pessoas novas, ter contato com novas realidades e compartilhar conhecimentos. Como tudo nessa vida, é preciso um cadinho de maldade e atenção para separar coisas boas das ruins, assim como pessoas relevantes daquelas que não acrescentarão nada à nossa existência. Tem muito lixo por aí. Em uma dessas viagens virtuais tive o prazer de conhecer melhor o Leandro Portella. Já conhecia seu blog e era fã da sua história. Ele ministrará um curso sobre a Sexualidade dos Lesados Medulares no final do mês. Como considero esse assunto bem interessante e ainda pouco divulgado, nós dois resolvemos fazer uma parceria transformando nosso bate papo informal em informação.

Leandro é uma daquelas pessoas que mexem com a gente. Tem 30 anos, é tetraplégico, trabalha com vendas e é blogueiro. Impossível ser indiferente a esse exemplo de superação. Afinal, não é pra qualquer um ter sua vida modificada da noite pro dia e tirar dessa experiência uma lição de vida. Já imaginaram o quanto deve ser difícil ser ‘andante’ e, num piscar de olhos, mover apenas dos ombros pra cima? Mas não vou exagerar muito nos elogios para que o moço não fique muito convencido! Vamos ao bate papo:

Há quanto tempo é deficiente? Como se tornou deficiente?

Leandro: Há 12 anos, tive uma lesão medular por mergulho em água rasa.

Há quanto tempo escreve? De onde surgiu a idéia para criar o blog Ser Lesado?

Leandro: Desde 2009, sempre tive vontade de ajudar outros lesados e o Blog foi o meio mais rápido e acessível.

Fabiano Puhlman, em seu livro Revolução Sexual sobre Rodas, aborda brilhantemente a questão do tornar-se deficiente. Normalmente, a pessoa passa por algumas fases até aceitar a situação e continuar vivendo de forma plena. Como foi esse seu período de transição?

Leandro: Geralmente isso ocorre durante 1 ano, mas por ter uma lesão alta, foram 2 anos de luta e adaptação.

Você tem comprometimento motor na C3. O que isso significa na prática? Quais suas principais limitações?

Leandro: Sou tetraplégico completo, só movimento dos ombros para cima e sou dependente do respirador para dormir! As dificuldades são inúmeras, mas ser dependente é o mais difícil.

Quem te ajuda nas atividades do dia a dia? Possui cuidador? Se sim, quanto gasta com ele?

Leandro: Família e cuidador. O custo é alto e varia dependendo da cidade e do número de horas trabalhadas. Há 4 meses estou com Home Care pago pelo Estado. O processo demorou 1 ano. Quem se interessar eu passo o contato do advogado.

As tecnologias assistivas têm facilitado bastante a vida das pessoas com deficiência. Quais delas você utiliza?

Leandro: Uso um comando de voz gratuito que se chama MOTRIX. Ele me dá total autonomia para utilizar o computador.

Como as pessoas lidam com sua deficiência? Sofre preconceito? Se sim, cite alguns exemplos.

Leandro: Nunca sofri preconceito, acho que também pela minha postura diante a deficiência!

Muitas pessoas desconhecem as limitações de um tetraplégico. Por exemplo, tem muita gente que pensa que todo cadeirante tem força nos braços. Eu mesma não imaginei que você digitava com a boca! Quais dicas você daria para as pessoas interagirem com um tetra que não mexe os braços, já que a falta de conhecimento leva ao preconceito?

Leandro: Apenas respeitar o limite do outro e na duvida é só perguntar para o Tetra!

Sabemos que quando se trata de lesão medular, cada caso é um caso. Vivemos em uma sociedade machista na qual o poder fálico é bem valorizado. Os homens, independente da deficiência, morrem de medo de perder esse poder. Hoje em dia, temos várias técnicas que auxiliam os lesados medulares a recuperarem sua vida sexual. No final do mês, você ministrará, em Sorocaba/SP, um curso sobre a sexualidade dos lesados medulares. Poderia nos contar um pouquinho do que será visto no curso?

Leandro: O curso será dia 29/10/11 e abordará os temas: anatomia, aspectos clínicos e reabilitação da lesão medular, anatomia urogenital, cateterismo vesical, disfunção sexual, disfunção erétil e o depoimento da vida sexual de um tetraplégico. O curso terá certificado e valerá como hora extra curricular.

Já que citou o cateterismo vesical, do que se trata? Como você lida com isso?

Leandro: É a passagem de sonda para esvaziar a bexiga; procedimento importante antes de ter relação sexual. Já adaptado, lido bem!

Você enfrenta preconceitos para arrumar uma parceira? Como lida com sua sexualidade? É possível sentir/dar prazer?

Leandro: Algumas mulheres têm receio, medo, talvez por falta de informação. Lido super bem: aprendi a sentir prazer. É diferente, mas muito bom!

Há um tempo atrás, quando voltei a acreditar em contos de fadas e estava me relacionando com um tetra C5, pesquisei sobre a viabilidade das relações sexuais entre pessoas com grande comprometimento físico. Pode ser um pouquinho mais complicado, mas querendo, pra tudo se dá um jeito. Afinal, não dizem por aí que nossa região mais erógena é o cérebro? Tudo passa por ele: tesão, amor, orgasmo… Quais posições sexuais você indicaria para alguém que deseja se relacionar com um tetra?

Leandro: Para o homem tetraplégico, não dá para variar muito: sempre com a parceira por cima. Em breve saberei novas, pois comprei o livro “Silla Sutra”…(risos)

Homens com lesão medular podem ter filhos? É possível ter ereção? É possível controlá-la?

Leandro: É possível sim. Tenho ereção reflexa (que é dependente do estimulo tátil) e a ereção involuntária (que não controlo). Filho também é possível, mas como não ejaculo, precisarei de uma orientação médica para fazer a coleta do esperma. A ereção não controlo, porém a sintonia com parceira faz a relação ficar satisfatória “demais da conta” para ambos.

Qual a primeira coisa que vem à sua cabeça quando pensa em:

Adriana: deficiência
Leandro: Superação

Adriana: sexo
Leandro: cumplicidade

Adriana: preconceito
Leandro: inaceitável

Não é fácil ser deficiente em nosso país. Imagine então ser tetraplégico C3. Leandro, você é um grande exemplo para nós. Uma das características que mais admiro em você é sua disposição para o trabalho. Seu blog, com certeza, ajuda muitas outras pessoas com deficiência. Disseminando o conhecimento, você contribui de forma proativa para a minimização dos preconceitos. Qual mensagem deixaria para os leitores?

Leandro: Acho que essa frase diz tudo que penso: “Quando sua realidade muda, seus sonhos não precisam mudar.” (Johnnie Walker)

Fonte: Rede SACI

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