Leandro Portella

Deficiência e Sexualidade: um tabu que precisa ser quebrado

Posted on jan 22, 2012

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Acesso à educação. Atenção à saúde. Inclusão social. Acessibilidade. São esses os eixos do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o Plano Viver sem Limite. Lançado pela presidente Dilma Rousseff no ano passado, a proposta terá investimentos, até 2014, de mais ou menos R$ 7 bilhões. A quantia é considerável. As diretrizes são importantes. Afinal, a parcela da população com algum tipo de deficiência é alta: 45,6 milhões, de acordo com o Censo 2010.

Por aqui, iniciativas públicas também buscam dar atenção a essas pessoas. O prefeito Vitor Lippi (PSDB) vai criar, ainda este ano, uma secretaria voltada às pessoas com deficiência. Ele estima que 10% da população sorocabana façam parte desse grupo.

No entanto, parece escapar um ponto importante quando se fala em inclusão: a questão da sexualidade. Não que as políticas públicas não abordem o tema. Um documento de 2009 do Ministério da Saúde fala dos direitos sexuais e reprodutivos das pessoas com deficiência. O texto aponta para ações que garantam o pleno desenvolvimento da vida sexual dessa parcela da sociedade.

Mas, na prática, a situação não é bem assim. Tanto que o professor Paulo Rennes Marçal Ribeiro, do Núcleo de Estudos da Sexualidade (NUSEX) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirma: “quando se fala em inclusão social, as questões sexuais ficam de fora”. A declaração de Ribeiro foi feita no livro “Inclusão e Sexualidade: na voz de pessoas com deficiência física”, de autoria de Ana Cláudia Bortolozzi Maia.

Não se pode, evidentemente, generalizar. O debate sobre o tema não é inexistente. Ele está ai, mas é, por vezes, velado. Ou tratado de maneira superficial. Até por que falar de sexualidade, ainda hoje, é um tabu. E o entendimento do assunto é, de certo modo, bastante limitado para boa parte da sociedade.

  

MUITO ALÉM DO “PAPAI E MAMÃE”

Muito além dos aspectos biológicos, a maneira como se encara a sexualidade é, sobretudo, uma construção cultural. “Ainda existe muita dificuldade de ver a sexualidade como algo além das genitálias”, esclarece a terapeuta sexual Osmeire Tobias Mendes. “Na sexualidade, a gente precisa usar os cinco sentidos. E muitas vezes, uma cultura traz que [sexo] seria uma questão de tato, por exemplo. Quando, na verdade, nós temos o olhar, a audição. Nós temos o próprio olfato, o sentir o cheiro de outra pessoa”. Professora da Unesp, Ana Cláudia, em seu livro, afirma: “Há no conceito de sexualidade a dimensão social”, escreve ela, “e, portanto,  questões como afetividade, o prazer, o erotismo etc, vão além do instinto sexual e que sofrem as influências do contexto; em decorrência, as diferentes concepções e atitudes em relação à sexualidade são manifestações sociais e históricas”.

 

 Em outras culturas, a penetração, por exemplo, não é o ponto máximo do sexo. “Há outras formas de se fazer a troca afetiva, existem outras culturas que conseguem ampliar um pouco mais a questão da sexualidade tirando da questão específica de genitália, de relação completa com penetração”, enfatiza Osmeire.

 

Para ser ter uma noção, é preciso entender o seguinte: a sexualidade acontece no cérebro. O que o resto do corpo tem são respostas para os comandos enviados por ele. Ana Maria aponta o seguinte: “embora o fenômeno da resposta sexual possa ser descrito em sua fisiologia, as percepções do desejo, excitação e orgasmo, tem a ver com o modo como essas experiências prazerosas e corporais foram apreendidas ao longo da vida”.

 

“Existe uma sequência de resposta sexual”, explica Osmeire, “onde acontece o instinto, a atração e ai ela tem uma subida, onde se dá uma plenitude, onde muitas vezes se dá o orgasmo, e, depois, dá uma caída. Então, ela acontece justamente na nossa mente, no nosso cérebro”. Ela vai além: “veja, se o comando vem da nossa cabeça, quanta coisa a nossa mente pode produzir para que a gente possa explorar a sexualidade”.

 

 

DESEJO SEXUAL

As deficiências podem ser classificadas em três tipos – física, intelectual e sensorial. Independente de restrições que possam acarretar, nenhuma deficiência tira do ser humano o desejo sexual. O professor Paulo Rennes lembra bem que “[…] as pessoas que devem ser incluídas são despidas de sua sexualidade e consideradas como seres assexuados”. Ele acrescenta, ainda, que a sociedade costuma distorcer e atribuir “limitações ou exacerbações para a sexualidade daqueles que têm deficiências”.

 

Não por acaso, o maior entrave, na maioria das vezes, para o pleno desenvolvimento da vida sexual dos deficientes é, como afirma a pesquisadora Ana Maria, no aspecto psicossocial, que decorre ou do preconceito ou da ignorância sobre o tema.

 

Isso porque, qualquer coisa que fuja de um padrão de “normalidade” causa estranheza e, por consequência, afastamento. Numa sociedade de imagens, de culto ao corpo e a beleza, estar “fora da moda” pode representar, para qualquer pessoa, uma dificuldade em vivenciar a sexualidade. “Está fora do peso, de uma altura, fora até da moda, muitas vezes, é como se não causasse uma atração. […] E a nossa sociedade preconiza muito essa imagem corporal. Então, mesmo que não tem uma deficiência “comprovada”, se estiver fora de um padrão de beleza, já será tratado como tal”.

 

Para se ter uma ideia, o único impedimento para o relacionamento dos deficientes visuais é o social. Fisicamente, nada atrapalha a vida sexual. No entanto, a diferença está no antes de chegar “aos finalmente”. A psicóloga Lucimara Pereira Felício, coordenadora técnica da Associação Sorocabana de Atividades para Deficientes Visuais (ASAC), explica: “ele não flerta pelo olhar. Então, ele vai ter acesso aos relacionamentos, às pessoas que se apresentarem ou forem apresentadas verbalmente e se dispuserem a levar uma interação à frente. Precisa ser uma interação mais direta para que eles possam conhecer pessoas e demonstrar seus interesses, desejos e, com isso, desenvolver os relacionamentos e chegar a vivência sexual”.

 

 

 

SUPERPROTEÇÃO

Outro ponto que a psicóloga aborda é algo que envolve boa parte das pessoas com deficiência: a superproteção. “A gente observa”, conta ela, “um desabrochar da sexualidade mais tardio, às vezes, devido a proteção familiar, do meio ambiente”. Isso faz com que a independência dos deficientes e, consequentemente, a maturidade demore mais para acontecer.

 

Quem concorda é o psicólogo Rodolfo Sanches Miguel, da Associação Amigos dos Autistas de Sorocaba (Amas). “Os pais não sabem como lidar, os profissionais, muitas vezes, também não, porque não tem muita pesquisa em relação a isso [sexualidade e autismo] e, então, volta aquela velha estigmatização de infantilizar o vínculo, tratar como se o autista fosse assexuado, como se ele não tivesse desejo”.

 

De acordo com o profissional, o que acontece, em muitos casos, é que o autista não sabe falar sobre as manifestações biológicas que ocorrem no seu corpo. “Ele não sabe como lidar com esse tipo de sentimento e falta de orientação para os pais e para o próprio autista, em relação ao conhecimento do próprio corpo, de como lidar com isso, causam alguns comportamentos que a gente chama de disfuncionais. Por exemplo, são comportamentos que podem ser auto lesivos, às vezes. Alguns autistas têm essa característica. Não sabe muito como se masturbar, por exemplo, e acaba se machucando”.

 

Osmeire esclarece que, quando há patologia psíquica-mental, geralmente se propõe um tratamento com medicação. “Então, existe uma química através da medicação que vai ajudar a exercer o controle [sexual], em alguns casos mais, em alguns casos menos. Então, em alguns casos, sem a medicação, o paciente pode ficar inconveniente porque ele não tem esse gerenciamento mental, cognitivo preservado. Bem medicado e bem acompanhado, em alguns casos, o paciente tem um razoável controle”.

 

 

EDUCAÇÃO SEXUAL

O comportamento considerado inadequado decorre, na sua maior parte, por falta de educação. É o que afirmam Tomás André dos Santos e Célia Regina dos Santos, fundadores da Comunidade Felicidade Down. “O grande problema”, acredita Tomás, “é que os pais não educam. Você tem “down” de 18 anos que não sabe amarrar um tênis. Então, veja o nível de educação que essa pessoa tem e, se ela chegar e começar a se masturbar em público, é decorrente dessa falta de educação”.

 

Para ele, isso acontece porque, na maioria dos casos, os pais tentam evitar sofrimento ou constrangimento para os filhos. “E ai você acaba prejudicando, deixando de lado a educação dele e é o que vai acontecer na parte sexual”, pontua Tomás. “Sem educação, vai parecer que ele, porque tem Síndrome de Down, é exacerbado [sexualmente]”, completa Célia. 

A educação sexual no Brasil, independente de deficiência, é falha tanto em casa quanto em instituições. Assim como o casal Santos, a terapeuta sexual Osmeire e o psicólogo Rodolfo também enfatizam a necessidade de se falar mais sobre o assunto, de pesquisar e trazer novas e mais aprofundadas abordagens sobre o tema. Ana Cláudia sugere em sua pesquisa que e educação sexual, quando abordada livre de regras repressivas, “pode influenciar de forma saudável a saúde psíquica e sexual e o modo como pessoas com deficiência exercem o direito à sexualidade e são reconhecidas por isso pelos familiares e pela comunidade em geral”.

 

A SEXUALIDADE, NA PERSPECTIVA DOS CADEIRANTES

Encontrar quem fale sobre o tema não é uma tarefa fácil. Os dois personagens desta reportagem são cadeirantes: Leandro Portella e Magno Donizete de Oliveira. O primeiro é tetraplégico. Ficou nessa condição aos 17 anos, quando um mergulho no mar deu errado. O segundo é paraplégico. Foi vítima de um acidente de trabalho em 2001.

Ambos são bem resolvidos. Falam da deficiência e, especialmente, da sexualidade sem constrangimentos. Leandro, à época do acidente, tinha namorada. Magno já era casado. Tanto um quanto outro afirmam: o fato de terem parceira fixa facilitou a retomada da vida sexual. Foi preciso, então, (re)descobrir a sexualidade.

“No começo, eu não entendia como poderia estar com a parceira sem ereção”, conta Magno. Foi preciso recorrer a ajuda de um profissional para compreender que havia inúmeras possibilidade no assunto. “Ele apresentou umas maneiras de ter uma vida [sexual] normal, fiz um curso, mas, para mim, a aceitação foi boa. Não tive tanto problema nem fiquei depressivo”.

Leandro, no auge da adolescência, não chegou a cogitar que a lesão impossibilitaria o desenvolvimento da atividade sexual. “Eu não tinha noção que poderia afetar essa parte. Então, como eu já namorava, já tinha uma intimidade com ela, a gente foi aprendendo juntos, foi tentando junto. Descobrimos tudo de novo, foi uma ‘segunda’ primeira vez”.

Ele e a namorada começaram a redescobrir o sexo sem orientação especializada. Buscaram conhecimento através da internet. “No meu caso, a primeira vez que eu ejaculei”, lembra, “eu quase morri.  Quase morri de verdade, não de prazer. Eu tenho um reflexão da lesão que, tudo que causaria dor, ao invés, causa essa desreflexia. Então, sobe a pressão, dá espasmos. Eu achei que estava morrendo e, não, estava gozando só. E eu não sabia nada disso, ninguém tinha me falado, fui descobrindo tudo sozinho”.

Foi preciso que Leandro perguntasse para o médico sobre o assunto. Só tempos depois que seu urologista começou abordar o assunto com mais frequência. Mas não costuma ser um tema sempre falado pelos médicos quando atendem cadeirantes. “Em 10 anos, fiz muitas consultas com médicos e poucas vezes ele perguntou como vai a parte sexual”, enfatiza Magno. Ele completa: “fui eu quem tive que buscar essa parte. Recentemente, eu tive no Ônibus do Homem e eu falei do assunto para o médico”.

Magno reclama que as propostas de inclusão não contemplam a questão sexual. “O sistema de saúde, em si, não trata disso como assunto principal. Ele quer saber se a pessoa está trabalhando, se está com saúde, mas acha que a gente não tem vontade, não tem desejo”. 

E estar bem resolvido com a sexualidade é fundamental para que o processo de inclusão seja aproveitado em sua plenitude. É assim que pensam Leandro e Magno. “O sexo faz parte da vida do ser humano e as pessoas não discutem isso. Se a pessoa não está bem sexualmente, ela acaba ficando triste, depressiva. Eu não conheço, pelo menos aqui na região, um trabalho que trate desse assunto. Sempre que a gente se reúne para falar de alguma coisa é sobre calçada, sobre vaga para estacionar o carro, sobre problema de saúde geral, mas nunca fomos chamados discutir a sexualidade”.  Leandro completa que falar de sexo para pessoa com deficiência parece ser um pecado mortal. “A gente conversa sobre tudo, sobre drogas, políticas. Porque não falar de sexo? Não tem a preocupação. O sexo ajuda bastante a autoestima”.

Para tentar suprir a falta de diálogo sobre o assunto e para demonstrar que as possibilidades são ilimitadas para todos, o jovem trabalha na tradução de um “kama sutra” para cadeirantes. O livro “Silla Sutra” (Cadeira Sutra, em tradução livre) é um livro de Arturo Valdez que traz uma infinidades de posições inspiradas no famoso manual sexual.

Fonte: Jornal Ipanema

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