Leandro Portella

Araçoiabano usa a arte para vencer limites

Posted on jan 15, 2018

Por meio de pincéis, tintas e telas, Leandro Portella, de 36 anos, transcende os limites do corpo. Seja nas abstrações ou nas paisagens, o artista deixa que as fantasias e os desejos tomem forma. “Pela falta de movimento, tento expressar o que gostaria de viver. Algumas fantasias da minha cabeça coloco na tela”, revela. A arte entrou em sua vida em 2001, após uma acidente que provocou uma grave lesão medular e o deixou tetraplégico.

“Começou como uma forma de reabilitação depois que sofri o acidente e fiquei muito tempo parado”, recorda. A partir da necessidade de se sentir útil e produzir novamente começou a “brincar” de pintar com a boca e teve aulas. No início apenas coloria quadros riscados, mas logo tomou gosto e passou a fazer as próprias produções. Tem apreço especial pelas obras abstratas — onde deixa o pincel e a criatividade fluírem sem planejamento. Porém também aprecia as paisagens — que admite terem mais apelo comercial — e que permitem que se desafie a compor imagens tecnicamente complexas. A dificuldade é, na verdade, um estímulo para Leandro. “Quanto mais difícil melhor.”

Em 2014, teve suas obras expostas na Alemanha pela primeira vez — à convite de uma brasileira radicada no país, feito que repetiu em 2015 e 2016. Em uma das ocasiões, conquistou a vaga por meio de um concurso aberto a 500 concorrentes, onde ficou na posição 63. Ele destaca com orgulho, que não entrou na competição como “um pintor com a boca”, e teve seu trabalho apreciado pela qualidade que possui. O artista entende que a técnica utilizada desperta curiosidade e valoriza a obra, mas gosta que os trabalhos sejam apreciados por sua qualidade.

O ritmo de produção é acelerado, não há limitações na inspiração de Leandro, apenas na estrutura para materializá-las. “Se deixar pinto todos os dias”, diz. Como não possui suporte para as telas, precisa que alguém segure o quadro, enquanto orienta para que a pessoa movimente a tela de acordo com sua necessidade. Quando o “cavalete humano” cansa, é preciso parar a sessão.

'Castelinho do padre' é uma das obras preferidas do artista. Pinturas são feitas com a boca e Leandro precisa de ajuda para o trabalho - EMIDIO MARQUES‘Castelinho do padre’ é uma das obras preferidas do artista. Pinturas são feitas com a boca e Leandro precisa de ajuda para o trabalho – EMIDIO MARQUES

A temática de seu trabalho é variada desde contemplações a locais que marcaram sua vida. “Fiz uma exposição apenas sobre mulheres, para mostrar todos os tipos de sensualidade independente da forma do corpo”, conta. O “Castelinho do padre” — ponto turístico de sua cidade Araçoiaba da Serra — é um dos prediletos do artista. Outro que fica exposto na sala de sua casa — localizada em uma chácara cercada de plantas e flores — é o ” Gruta que chora, praia Sununga Ubatuba”. A praia é o local onde sofreu o acidente que o deixou paralisado quando tinha 17 anos e para onde deseja retornar algum dia.

Encontrar a própria voz

Ele havia acabado de prestar vestibular para odontologia, embora amasse a educação física. Aliás, os esportes e explorar os limites do corpo eram sua paixão. Hoje, brincalhão, sorridente e falando com confiança, Leandro conta que durante a infância tinha dificuldades para se expressar. Nasceu com uma fenda no palato que provocou problemas na fala e foi alvo de bulliyng na escola. Recorda que se precisava apresentar um trabalho escolar, ficava doente logo na véspera.

Desta forma, voltou suas atenções para a prática de esportes, em especial para a natação, pelo qual chegou a competir. “Quando estava no auge da forma física, “Deus falou: você vai usar a voz””, afirma Leandro. Em uma visita à praia, tentou furar uma onda e — não se sabe se pela força da onda ou um banco de areia — sofreu uma lesão que o deixou seis meses na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). No local, fez vários amigos, alguns que mantém até os dias atuais.
Hoje conta com a ajuda de terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, psicólogo, homecare e duas auxiliares de enfermagem. Há ainda o custo com medicamentos, sondas e outros insumos essenciais para pessoas com sua condição. Ele lamenta a falta de estrutura disponível para indivíduos com lesão medular, que são mais suscetíveis a alguns problemas de saúde, como infecções. O próprio Leandro já passou por alguns “sustos”, mas se mantém firme. “Eu acho que é a vontade de viver independente da situação”.

Desde o acidente também já teve a experiência de atuar como vereador em Araçoiaba da Serra em 2012 — cargo que ocupou por apenas nove meses devido a um problema em um dos partidos de sua coligação. Ele chegou a concorrer novamente em 2016, recebendo 400 votos, mas não assumiu uma vaga devido ao quociente eleitoral. Sua bandeira, era a de inclusão e acessibilidade. “Eu não deixo a sociedade decidir o que fazer de mim. Eu decido”, afirma.

Agora, o rapaz que temia falar em público dá palestras em escolas e empresas (a maioria sem cobrar nada, apenas para “passar e receber informações”). A sua mensagem é a valorização da vida, a tentativa de ver o lado bom das coisas. “Eu me sinto um cara abençoado, tenho tudo menos movimento”, diz.

Viver da arte e a arte para viver

A temática vai desde contemplações a locais que marcaram a vida do artista - EMIDIO MARQUESA temática vai desde contemplações a locais que marcaram a vida do artista – EMIDIO MARQUES

Leandro conta que ainda sonha em sobreviver da arte, pela venda de gravuras e cartões de seus quadros, e da comercialização das obras originais. Ele reconhece, no entanto, que muitos artistas só ganham reconhecimento após a morte. Já Leandro luta por suas conquistas em vida. “Eu gosto da vida, mas a parte trágica faz parte da arte”, pondera. Ele relata que um dos momentos em que mais se dedicou à arte foi quando a avó — com quem vivia, junto à mãe e ao avô — faleceu. “Pintava todo dia”, diz.

Apesar das dificuldades, segue disseminando sua mensagem de otimismo. Pela web, mantém contato com amigos e redes sociais, utilizando um software por voz. Ele comercializa sua arte pelo site http://leandroportella.com.br/, eviando as obras por Correio para todo o mundo. Outro sonho ainda a realizar é lançar uma biografia e alcançar ainda mais pessoas com sua história de superação.

Arteterapia ajuda a reabilitar pacientes

A arte pode ser utilizada como ferramenta na reabilitação e inclusão de pessoas com deficiência, como explica o médico Celso Cruz, ortopedista na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), em São Paulo, e no Núcleo de Ortopedia e Traumatologia Esportiva (NOTE), em Sorocaba. “A arteterapia é uma forma de ajudar na reabilitação do paciente”. diz.

O especialista conta que recursos como a pintura e a musicoterapia, contribuem para fortalecer os aspectos emocional e psicológico dos pacientes, contribuindo para o andamento das reabilitações físicas. “A reabilitação é um todo”, explica. Cruz aponta ainda que casos como o de Leandro Portella mostram que a pessoa com deficiência pode desempenhar um papel em nossa sociedade, exibindo a possibilidade da inclusão. “Esses casos servem de exemplo”, aponta.

Fonte:  Jornal Cruzeiro do Sul

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